26/04/2020

Opinião - Em tempos de crise, lutemos pela poesia!




“E continuamos. É tempo de muletas.
Tempo de mortos faladores
e velhas paralíticas, nostálgicas de bailado,
mas ainda é tempo de viver e contar.
Certas histórias não se perderam.
Conheço bem esta casa,
pela direita entra-se, pela esquerda sobe-se,
a sala grande conduz a quartos terríveis,
como o do enterro que não foi feito, do corpo esquecido na mesa,
conduz à copa de frutas ácidas,
ao claro jardim central, à água
que goteja e segreda
o incesto, a bênção, a partida,
conduz às celas fechadas, que contêm:
papéis?
crimes?
moedas?”[2]

            A Terra, ao revolve-se sobre si, nos permite conhecer aquilo que nomeamos de dia e noite. Em tempos de enfermidade epidêmica na política, na economia e na saúde, tal movimento rotacional se dá por um caminhar contínuo dos ponteiros do relógio ao ritmo de incertezas, indignações e reflexões. E diante de tais aflições, uma entrevista do filósofo e sociólogo francês Edgar Morin[3], para a Folha de São Paulo, pode nos ajudar a elucidar um caminhar possível para o enfrentamento de problemas complexos da vida em sociedade.  
            O sociólogo advertiu acerca dos perigos em sustentarmos uma política voltada para o imediatismo e para a urgência de resultados financeiros. Neste aspecto, Morin não se referiu a um imediatismo e urgência como medidas de resolução a crises já instauradas, mas sim em como tais posturas dentro do âmbito político são causadoras de instabilidades e autodegradação da humanidade. Portanto, para ele, uma política voltada para o imediatismo e a urgência conferem um grande potencial lesivo naquilo que de fato é essencial: o ensino e desenvolvimento de uma consciência humana sobre a própria humanidade.
A supremacia do dinheiro resultou na crise democrática que vivemos, evidenciado pela proliferação da corrupção e, consequentemente, na ausência de confiança em nossos governantes. Para Morin, a desconfiança no Estado Democrático se instaura no seio da corrupção com o vazio do pensamento, abrindo as portas para a proliferação de regimes neoautoritários.
O filósofo mencionou como a imposição de regras liberais econômicas absolutas, propostas inicialmente pelos governos de Margaret Thatcher[4] e Ronald Reagan[5], foram fundamentais para a soberania do dinheiro sobre a política. E essa, para o filósofo francês, é a constituição da crise da democracia: a sujeição da política à dominação de um sistema econômico voltado exclusivamente para o lucro. Tal sujeição, “não tem consciência do destino da humanidade[6], ou como colocado por Boaventura Sousa Santos, inviabiliza o debate acerca dos processos civilizatórios.

A prova é a degradação da biosfera, que é evidente, e que vivemos na degradação da Amazônia ou na poluição das cidades, por exemplo, mas que é ignorada em detrimento de um benefício imediato. Assim, damo-nos conta de que vivemos em uma época de cegueira e sonambulismo. Isso participa da crise da democracia.[7]

Para Morin, agimos por muito tempo como sonâmbulos, acreditando que os problemas futuros — oriundos do imediatismo e urgência em se acumular riquezas sem medir as consequências, ignorando o potencial destrutivo da exploração desmedida da natureza e do próprio ser, que se dão e se mantém pelo desequilíbrio social e político — nunca chegariam. O combate ao sonambulismo, para o sociólogo, só é possível pelo regate da consciência enquanto comunidade e enquanto ao destino da humanidade.
A resolução de grandes problemas, requer uma pluralidade de conhecimentos que possibilitam um olhar amplo acerca da complexidade do conflito que se apresenta. A crise do pensamento e a crise da democracia em que vivemos, para o sociólogo origina-se da carência de reflexão política. Morin salientou que tal crise do pensamento não nega a existência de grandes pensadores políticos como Karl Marx e Toqueville, porém houve um distanciamento do debate intelectual na aplicabilidade e prática dessas reflexões no exercício político. Neste ponto, podemos traçar um diálogo com o posicionamento dado por Sousa Santos[8] acerca dos problemas decorrentes do distanciamento do debate político com o debate civilizatório. Este último debate, é entendido pelo sociólogo português como constituído de reflexões críticas acerca de alternativas políticas, econômicas, sociais e culturais que rompeu simbolicamente com o debate político a partir da queda do Muro de Berlim.
Para Sousa Santos, a articulação de ambas as esferas — civilizatória e política — é basilar para a constituição de uma sociedade mais humana e humilde[9]. A academia possui densa produção intelectual que alimenta o debate ético em termos daquilo que Santos nomeia de processos civilizatórios, que se inserido ao processo político possibilitará grandes saltos para a transformação social. Tal transformação, para Morin, só é possível pela instauração de um senso de solidariedade e proteção de interesses coletivos de perspectiva global, humanitária e universal. Para isso, a preservação da resistência e dos valores universalistas, humanistas e planetários são fundamentais.
Morin, ainda pontuou em sua entrevista que a incerteza — geradora de angústias e provedora de instabilidades institucionais férteis à ascensão de políticas e políticos autoritários —, deve ser enfrentada com coragem pela sociedade, pautando-se na fraternidade. Para isso, o ensino acerca do viver, que permitem o conhecimento humano e humanitário, é basilar para o enfrentamento de crises, superação de dogmas e aceitação de certezas e incertezas.
Temos dificuldade de enfrentamento e solução de problemas diante da vida, tanto enquanto indivíduo, como enquanto cidadão. E exatamente por isso o filósofo defende um ensino que debata e investigue a identidade humana para que de fato uma consciência humana se funde e que obstáculos que violam o bem estar coletivo, como a corrupção e a sujeição ao dinheiro em detrimento da saúde pública, da educação e da cultura, sejam superados.

Sobre poesia eu não penso, eu simplesmente faço: a minha poesia nasce do espanto. Qualquer coisa pode espantar um poeta, até um galo cantando no quintal. Arte é uma coisa imprevisível, é descoberta, é uma invenção da vida. E quem diz que fazer poesia é um sofrimento está mentindo: é bom, mesmo quando se escreve sobre uma coisa sofrida. A poesia transfigura as coisas, mesmo quando você está no abismo. A arte existe porque a vida não basta.[10]


            O escritor e crítico de arte Ferreira Gullar compreendia o potencial reflexivo da poesia para o entendimento do ser e do viver. Uma vida, sem ela, ficaria restrita ao que Morin definiu de prosa — relativa à sobrevivência, ao cotidiano repetitivo instaurado pelo processo de industrialização e a burocratização de nossas instituições em que temos o compromisso da sujeição —, causadora da degradação da qualidade de vida.
O entendimento de prosa proposto pelo filósofo francês, dialoga com a noção de esfera do agir racional-com-respeito-a-fins da Teoria da Ação habermaziana. Tal agir pauta-se em resultados e no lucro, prezando pela celeridade do desenvolvimento econômico, próprio de um mundo tecnicizado. Mas, esta é apenas uma das duas esferas do agir que compõem as atividades humanas, sendo a outra esfera denominada de interação. Nesta última reside aquilo que o filósofo alemão compreende por dimensão genuína da espécie humana: a linguagem e a nossa capacidade comunicativa. Na esfera da interação é onde a reflexão crítica, o debate intelectual e a poesia se manifestam.
A poesia, para Morin, corresponde à resistência do âmbito privado[11] em relação à hegemonia da prosa. Ela se dá nas relações de afeto e no jogo (que podemos traduzir por lazer, prazer, arte, produção de conhecimento e interações próprias do viver) que promovem a manutenção da qualidade de vida.
Vivemos num processo de despolitização que se funda na compressão da esfera interativa (a poesia) pela esfera do agir-com-respeito-a-fins (a prosa). Mais trabalho, mais consumo e mais exploração desmedida de recursos naturais para a concentração de renda, resultam na autocoisificação do homem que o distanciam de sua identidade humana, da criatividade, do diálogo, do viver fraterno em comunidade. Portanto, o combate à degradação política e democrática que estamos presenciando só é possível pela poesia.

Poetize-se!
E permaneça em casa.


[1] Estudante do Curso de Direito do Unicuritiba, e integrante do Grupo de Pesquisa de Ética, Política e Democracia da instituição.

[2] ANDRADE, Carlos Drummond de. A rosa do povo. Rio de Janeiro: Record, 2008. p. 40. [fragmento do poema Nosso tempo, a Oswaldo Alves.]

[3] PASSOS, Úrsula. Seguimos como sonâmbulos e estamos indo rumo ao desastre, diz Edgar Morin. São Paulo: Folha de São Paulo, 2019. Disponível em: <https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2019/06/seguimos-como-sonambulos-e-estamos-indo-rumo-ao-desastre-diz-edgar-morin.shtml>. Acesso em: 24.04.2020.

[4] Primeira-Ministra do Reino Unido de 1979 a 1990.

[5] 40º presidente dos Estados Unidos, de 1981 a 1989.

[6] MORIN in PASSOS,2019, p. 3.

[7] MORIN in PASSOS,2019, p. 3.

[8] SANTOS, Boaventura Sousa. A cruel pedagogia do vírus. Coimbra: Almedina, 2020. 33 p.

[9] SANTOS, 2020, p. 30-31.

[10] TRIGO, Luciano. 'A arte existe porque a vida não basta', diz Ferreira Gullar. Paraty: G1, 07/08/2010. Disponível em: <http://g1.globo.com/pop-arte/flip/noticia/2010/08/arte-existe-porque-vida-nao-basta-diz-ferreira-gullar.html>. Acesso em: 25/04/2020.


[11] Cabe ressaltar a distinção entre privado e íntimo, no âmbito da psicanálise. De acordo ao professor e psicanalista Christian Dunker, ao se pensar a mistura da esfera pública com a privada, a zona intermediária da intimidade se perde. Privacidade é aquilo que pertence ao indivíduo e tem sua privacidade regulada por ele. A intimidade como o nome mesmo o diz, é mais íntimo, aquilo que de fato corresponde ao que o indivíduo é, seus anseios e angústias. Nesse aspecto, podemos pensar numa dissolução dentro do próprio âmbito privado pela planificação/achatamento do ser pela prosa, proposta por Morin, em que o íntimo não se revela naquilo que apresentamos enquanto privado.

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